Crítica à injustiça social
O profeta denuncia o comportamento dos ricos e latifundiários, dos
que vivem em grandes festas custeadas pelo trabalho dos pobres, dos que
exploram o povo negando-lhe a justiça e dos que se fazem grandes e
importantes vivendo em grandes banquetes (5:8-24).
- Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até
que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio do
país. (5:8)
Nesse aspecto destaca-se sua semelhança com o profeta
Amós,
até porque eles são quase contemporâneos: Amós é de 760 AC e Isaías
inicia sua atividade em 740 AC. A problemática social era a mesma para
ambos, embora Amós fosse um camponês e Isaías um homem culto ligado à
corte, ambos atacam os grupos dominantes da sociedade: autoridades,
magistrados, latifundiários, políticos.
Isaías é duro e irônico com as damas da classe alta de Jerusalém (3:16-24), assim como
Amós o fora com as madames de
Samaria
em Am 4:1-3, além disso Isaías defende, com paixão, órfãos, viúvas,
oprimidos, o povo explorado e desgovernado pelos governantes, denuncia
igualmente a máscara da religião que encobre a injustiça (1:10-20), do
mesmo modo que Amós em (2:6-16), (4:4-5) e 5:21-27.
[2]
Época de Acaz
Nessa época ocorreu uma grande crise política e militar em
Judá, provocada pela crescente ameaça do
Império Assírio e pelos muitos erros do governo de Judá. Era o tempo da política expansionista do rei
Teglat-Falasar III, iniciada em 745 AC, que implicava numa grave ameaça para os pequenos reinos da região.
Israel Setentrional,
Damasco
e outros da região tornaram-se tributários da Assíria. Golpes de Estado
em Israel, alianças contra ou a favor da Assíria faziam parte da
política internacional da época.
[2]
Facéia, um rei golpista, de
Israel, fez uma aliança com o
Damasco e ambos decidiram invadir
Judá, derrubar
Acaz e colocar um estrangeiro em seu lugar, para usar o reino do sul numa coalizão militar contra a
Assíria, trata-se da
Guerra Siro-efraimita, iniciada em 734 AC. Acaz pede o auxílio da Assíria e
Teglat-Falasar III tomou Damasco e 3/4 de Israel, restando apenas a
Samaria que, posteriormente (em 722 AC), foi tomada pelas tropas assírias de
Salmanasar V e de
Sargão II.
[2]
Como preço pelo auxílio da
Assíria,
Judá perdeu sua independência,
Acaz viu-se obrigado a reconhecer os deuses assírios como seus libertadores e a prestar-lhes culto, apresentar-se a
Teglat-Falasar III
para prestar-lhe obediência e pagar pesados tributos, o que resultou
num aumento os impostos pagos pelo povo, aumentando as injustiças que
antes já eram denunciadas por Isaías. Nesse contexto, a religião oficial
procurava encobrir os problemas com grandes festas.
[2]
Alguns teólogos denominam a parte do
Livro de Isaías compreendida entre o início do cap. 7 até o sexto vers. do cap. 12 (7:1-12:6) como
Livro do Emanuel (7:14), estima-se que essa parte da obra foi escrita e, portanto, deve ser interpretada no contexto da
Guerra Siro-efraimita e da conseqüente dependência da
Assíria. São seis capítulos organizados pelo redator do livro de Isaías em torno de três temas:
[2]
- os sinais, como o do menino que vai nascer (7:14-15);
- o binômio invasão/libertação, que aparece em vários textos;
- o significado de nomes próprios.
O início do cap. 7 (7:1-17) revela a esperança de Isaías em
Ezequias. É um texto que deve ser lido considerando-se a existência de dois blocos diatintos:
[2]
O primeiro bloco (7:1-9), relata o encontro de Isaías com
Acaz, às vésperas da
Guerra Siro-efraimita, em 734 ou 733 AC. Quando os reis de
Damasco e de
Samaria planejam invadir
Judá para depor
Acaz e no seu lugar colocar um rei não-davídico - o filho de
Tabeel - que envolveria o país na coalizão contra o
Império Assírio, Isaías vai ao encontro de Acaz, que está cuidando das defesas de Jerusalém.
O segundo bloco (7:10-17) relata novo encontro de Isaías com
Acaz, desta vez, talvez, no palácio, no qual o profeta oferece ao rei um sinal de que tudo se arranjará diante da ameaça
siro-efraimita. Com a recusa do rei em pedir um sinal a
Iahweh,
Isaías muda de tom e relata a Acaz que Iahweh, por própria iniciativa,
dar-lhe-á um sinal, que consiste no seguinte: a jovem mulher dará à luz
um filho, seu nome será Emanuel (Deus-conosco) e ele comerá coalhada e
mel até que chegue ao uso da razão.
É razoável concluir que a jovem mulher seja jovem rainha, mãe de
Ezequias, considerando-se que Isaías falou a
Acaz nos primeiros meses de 733 AC, e Ezequias teria nascido no inverno de 733-32 AC.
Isaías volta a falar de
Ezequias
no início do cap. 9 (8:23b-9:6), pois este início de capítulo deve
compreendido em conjunto com o final do cap. 8, no qual menciona as três
regiões de
Israel conquistadas entre 734 e 732 AC por
Teglat-Falasar III, que são:
Zabulon (caminho do mar),
Neftali (o além-Jordão) e a
Galiléia (o território das nações). Isaías fala destas regiões para despertar a esperança:
Iahweh,
que humilhou estas terras, as cobrirá de glória. E o povo, que vivia
nas trevas e na tristeza, viverá na luz e na alegria. Uma alegria
enorme, que é causada pelo fim da opressão (o jugo, a canga e o bastão
do opressor foram quebrados), pelo fim da guerra (a bota e o uniforme
militar foram queimados) e, principalmente, pelo nascimento de um menino
em
Judá.
Este menino é um personagem da casa real, de acordo com os quatro
títulos que lhe são atribuídos em 9:5, títulos que parecem ser
características sobre-humanas e messiânicas, mas que podem caber bem aos
reis, segundo a mentalidade da época: a sabedoria do rei na
administração (Conselheiro), sua capacidade militar (Deus-forte), zelo
pela prosperidade do povo (Pai), preocupação com a felicidade do povo
(Príncipe-da-paz), além disso, 9:6 esclarece que este menino é da "casa
de
David" e caracteriza suas ações: governará com direito e justiça, e, por isso, deve tratar-se de
Ezequias.
[2]
Isaías volta a referir-se a
Ezequias no início do cap. 11 (11:1-9), pois o ponto de referência do profeta continua sendo um rei da época, descendente de
David,
que salvaria o país da catástrofe. O texto fala de um personagem régio
(11:1), de suas qualidades (11:2), de sua atuação (11:3b-5), da
instauração de uma nova realidade (11:6-8) para concluir que então
haverá em
Israel conhecimento de
Iahweh.
Este personagem esperado, fiel a
Iahweh,
vai instaurar um reino de justiça e paz, onde o pobre e o oprimido
serão protegidos contra a prepotência dos poderosos. Justiça e paz que
são simbolizadas, no poema, pela convivência harmoniosa de animais
selvagens e domésticos. A identificação deste personagem da família
davídica é problemática. Alguns acreditam que o poema trata da utopia profética de Isaías por ocasião da coroação de
Ezequias como rei em 716 ou 715 AC. Outros defendem que se
Ezequias
fora o objeto da esperança de Isaías de tirar o país da crise, como
aparece em 7:1-17 e 8:23b-9:6, agora, decepcionado com sua política
pró-egípcia que acaba provocando a invasão do assírio
Senaquerib, pensa em alguém que no futuro possa resgatar Israel.
Ezequias tomou posse como rei em em 716 ou 715 AC, após a morte de seu pai
Acaz, e aproveitou a pouca vigilância
assíria para fazer uma reforma em
Judá.
Foi uma reforma religiosa, social e econômica, na qual defendeu os
artesãos dos exploradores, com a criação de associações profissionais,
retirou do
Templo de Jerusalém os símbolos idolátricos e construiu um novo bairro em
Jerusalém, para abrigar os refugiados de
Israel. Entretanto, em 701 AC
Senaquerib destruiu 46 cidades fortificadas de
Judá e sitiou
Jerusalém.
[2]
Controvérsias sobre a autoria do livro e sobre sua unidade
Embora a teologia tradicional judaico-cristã defenda a existência de um único autor, respaldada por
Eclesiástico 48:24-25, existem fortes evidências de que o
livro
foi obra de mais de um autor, merecendo destaque o início do capítulo
40, onde se verifica a descontinuidade entre o Primeiro e o Segundo
Isaías, pois ocorre uma mudança abrupta do século VIII AC para o período
do
Exílio na Babilônia (século VI AC), não se fala mais uma única vez de Isaías e a
Assíria é substituída pela
Babilônia, cujo nome é mencionado com frequência, assim como o nome de
Ciro, rei dos
medos e
persas.
[3] Havendo estudos que indicam que dos 66 capítulos do
livro, menos de 20 foram escritos pelo profeta do século VIII AC que viveu durante os governos dos reis
Joatão (739-734 AC),
Acaz (734 ou 733 - 716 AC) e
Ezequias
(716 ou 715 - 699 ou 698 AC), estando tais capítulos concentrados na
primeira parte do livro, que engloba os caps. 1 a 39, também conhecida
como Proto-Isaías ou Primeiro Isaías.
[2]
Portanto, o
Livro de Isaías
é uma coletânea de oráculos proféticos de épocas bem diferentes, cuja
redação final deve ter acontecido por volta de 400 AC, ou mesmo mais
posteriormente. Trezentos anos depois da morte de Isaías ainda se
atualizavam suas palavras, pois mesmo os oráculos da época dele foram
relidos na perspectiva pós-exílica. O horizonte de leitura do livro
completo de Isaías é o da época
persa e da comunidade judaica pós-exílica.
[2]
Portanto, de acordo com a teoria da crítica bíblica moderna, foram dois Isaías que escreveram o
livro. O
Proto-Isaías escreveu parte dos capítulos 1 a 39 do
Livro de Isaías. Ele admoestava Israel pelas convulsões sociais e pela sua política externa, pronunciou-se contra a ameaça dos
Assírios e foi o primeiro a mencionar a espera de um
Messias. De acordo com alguns teólogos, os capítulos 24 a 27 e 33 a 39 contêm dados adicionais posteriores.
Os capítulos 40-55 do
livro de Isaías foram escritos por um profeta anônimo. A este anónimo costuma chamar-se de
Dêutero-Isaías,
para distingui-lo do primeiro. Ele viveu por volta de 550-539 a.C. e
deu a sua consolação ao povo israelita que tinha sido feito prisioneiro e
enviado para o
Cativeiro Babilónico. Falava também num vassalo de Deus que iria trazer o povo de regresso a Israel.
Os capítulos 55-66 do
Livro de Isaías são tidos por alguns pesquisadores modernos como acréscimos posteriores ao Dêutero-Isaías, que por volta de
1900, acreditou-se ser um terceiro autor (um terceiro Isaías), mas que, de acordo com a teoria, podem ter sido vários.
Porém, a teoria de um único Isaías é aceita pelos fundamentalistas,
que encontram termos em comum nos três livros e consideram tais termos
como prova de veracidade. Não aceitam imaginar que antes da invenção da
escrita, os livros eram reproduzidos por copistas, e que eles os
traduziam. Ora, se uma só pessoa cópia e traduz um texto, é natural que
no fim ela consiga dar coerência aos textos.
Mesmo com pesadas críticas, a posição tradicional entre os teólogos e fundamentalistas é a de que o
Livro de Isaías foi escrito por uma única pessoa entre 740 a 681 a.C.pelos seguintes motivos:
- - - Nos capítulos nas duas seções existem palavras que atestam sua unidade, como:
- -
-
- “… as vossas mãos estão cheias de sangue." (1:15; 59:3)
-
- “… será a coroa de glória e o formoso diadema para os restantes de seu povo." (28:5; 62:3)
-
- “… pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo."(35:6; 41:18)
- - - As mudanças no tema acontecem para preparar o leitor e fazer com que o mesmo entenda a mensagem. Norman Geisler explica:
- - "Os capítulos 1 a 39 preparam o leitor para as profecias contidas
nos capítulos 40 a 66. Sem esses capítulos preparatórios, a última
seção do livro não faria muito sentido.
Por outro lado, filólogos e historiadores, especializados na análise
apropriada de textos e desprovidos de preconceitos religiosos, refutam
cada uma dessas tentativas de defender a unicidade do livro, mantendo
suas hipóteses acerca da tripla autoria do livro, que é a atual posição
entre a maioria dos historiadores.
A questão em torno de Isaías 40:22
Uma das passagens bíblicas que talvez tenham gerado mais
controvérsias e problemas na História, atingindo crucialmente a questão
do helicentrismo
versus teocentrismo, é a passagem de Isaías 40:22.
Nesta passagem, algumas das traduções (inclusive as que estavam em
vigor no tempo da Idade Média) era o de traduzir a palavra hebraica
hhug
por "círculo". Tal passagem acabou por gerar a interpretação de que a
Terra teria a forma de um prato, ou um disco - a Versão Católica ainda
traduz o termo como "disco",
[4] o que acabou por ser um dos motivos da oposição às viagens de
Colombo quando este almejou encontrar as Índias contornando a Terra.
No entanto, de acordo com o livro de B. Davidson "
A Concordance of the Hebrew and Chaldee Scriptures"
(Concordância das Escrituras Hebraicas e Caldéias), a mesma palavra
pode ainda ser traduzida por "esfera". Sob uma análise científica, tais
termos levaram muitos a crer que esta passagem da Bíblia é uma amostra
de sua falsidade, uma vez que hoje é tido como verdade científica
comprovada que a Terra não é nem um prato, nem uma esfera, mas de
formato
geoide.
No entanto, apesar de este fato científico anular a interpretação de
que a superfície da terra é uma esfera ou círculo, não anula o termo por
completo quando se muda o plano de referência, tomando a observação no
espaço sideral como tal. Isto porque, quando vista do espaço, a Terra
possui um desenho circular devido à
atmosfera, e, se fosse considerar o formato completo, também pode ser observado como esfera.
Ver também
Notas e referências
- ↑ Bíblia de Jerusalém, Nova Edição Revista e Ampliada, Ed. de 2002, 3ª Impressão (2004), Ed. Paulus, São Paulo, p 1.237
- ↑ a b c d e f g h i j k l Perguntas mais Freqüentes sobre o Profeta Isaías, acessado em 14 de agosto de 2010
- ↑ Tradução Ecumênica da Bíblia, Ed. Loyola, São Paulo, 1994, p 589
- ↑ Isaías 40:22 na BibliaOnline
- Manual Popular de duvidas, enigmas e "contradições" da Bíblia, p. 273, 274 e 275.
Ligações externas